Apagão de dados do Ministério da Saúde pode estar escondendo recorde de casos de Covid-19 no Brasil

Análise da Impulso Gov a partir de Informações do Facebook, disponibilizadas em plataforma do Conass, mostra um percentual recorde de usuários da rede social com sintomas de Covid-19 na primeira semana de janeiro, o que pode indicar recorde de casos da doença no Brasil, mascarado por apagão de dados oficiais

São Paulo, 11 de janeiro de 2022 – Desde 10 de dezembro, quando um ataque hacker atingiu os sistemas do Ministério da Saúde, não há informações precisas sobre o real cenário da pandemia de Covid-19 no Brasil. O apagão de dados pode estar escondendo um número recorde de casos da doença no país.

É o que estima a Impulso Gov, organização sem fins lucrativos que impulsiona o uso de dados e tecnologia no SUS. A análise foi feita com base nos dados de sintomas e comportamentos de usuários do Facebook, compilados desde o início da pandemia no painel “Redes Sociais e Covid-19 – Sintomas e Comportamentos dos Internautas”, desenvolvido pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) em parceria com a Vital Strategies. Os indicadores do painel já apresentaram excelente poder preditivo no passado, antecipando em cerca de 15 dias o número de casos oficiais da doença no país.

Um percentual recorde de usuários do Facebook reportou estar com sintomas de Covid-19 em 7 de janeiro de 2022 (informação mais recente disponibilizada pela plataforma). Este indicador já tinha batido recorde antes mesmo das festas de fim de ano, em 18 de dezembro. A nova divulgação de dados reforça a percepção de que o cenário se agravou desde então.

É possível que uma parte desse aumento seja um reflexo do surto de influenza, dado que parte dos sintomas é parecida com as do coronavírus. A rede social tenta diferenciar as doenças em sua pesquisa, mas não é possível garantir a precisão deste diagnóstico. Também não é possível saber a real situação da pandemia de Covid-19 no país, uma vez que a plataforma oficial do Ministério da Saúde só tem dados dos casos oficialmente confirmados até o dia 21 de dezembro.

“Olhando para o gráfico, o número de sintomáticos no Facebook nunca foi tão alto, mesmo antes das festas de fim de ano, e bateu novo recorde na primeira semana de janeiro. O número de casos confirmados costuma seguir essa tendência com algum atraso”, explica o diretor-executivo da Impulso Gov, João Abreu. “Considerando esse cenário, é provável que tenhamos um recorde de casos de Covid-19 agora ou nos próximos dias. O apagão de dados pode estar escondendo isso”, completa.

Com o percentual de usuários do Facebook sintomáticos atingindo o maior patamar desde o início do levantamento, em abril de 2020, e se a correlação entre a pesquisa e os dados reais se mantiver constante (ver gráfico), podemos estar superando os 70 mil casos diários — algo que não ocorre desde junho do ano passado — em tendência de alta. 

“Seria difícil imaginar um momento pior para um apagão de dados. Precisamos urgentemente monitorar a situação e não conseguimos. A grande questão agora é em qual velocidade as hospitalizações e os óbitos vão subir. Mesmo que não seja em ritmo parecido com o número de casos, já que a maioria da população está completamente imunizada e a variante ômicron tem se mostrado menos letal, podemos estar diante de uma situação grave”, afirma Carlos Lula, secretário estadual de Saúde do Maranhão e presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde). 

Segundo dados compilados pelo consórcio de imprensa, 68% da população brasileira (mais de 144 milhões de pessoas) está completamente imunizada. Mas, ainda que os casos que não levem a óbito na mesma proporção que ocorreu em 2021, podem sobrecarregar o sistema de saúde com atendimentos simultâneos em grande volume. 

O cenário reforça que teremos que aprender a lidar melhor com a Covid-19, assim como lidamos com outras doenças infecciosas respiratórias, como a gripe. “Em casos de surtos, precisaremos agir rápido, com medidas de prevenção efetivas para evitar escalada de hospitalizações e sobrecarga do sistema de saúde. Para isso precisamos de dados confiáveis e precisos. Apagões como o que vivemos hoje são inaceitáveis”, finaliza Abreu.

Mais informações: imprensa@impulsogov.org